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Publicada em: 18/02/2010
Apresentamos a loja itinerante da Maria Berenice
Venda de bolsas e acessórios em ônibus atraem clientes e quebram paradigmas em relação às lojas habituais
Fotos: Cristiane Peixoto

Maria Berenice: Bolsas artesanais em uma loja diferente

A intuição de renegar um alto valor em dinheiro por um microônibus escolar, um hobby de costura despretensioso, e a dificuldade de atuar em um grupo teatral. Todos esses acontecimentos interligados fizeram com que a atriz Adriana Bruno, 33 anos montasse um negócio que atrairia as pessoas pela inovação e criatividade.

Maria Berenice é a grife de bolsas artesanais, e nome do microônibus que funciona como loja itinerante. Em um ponto da cidade a cada fim de semana, o veículo fica estacionado, à espera de clientes que são recepcionados pela atriz de teatro que idealizou a iniciativa. Até o momento em que se concretizou o comércio de bolsas no microônibus, uma série de coincidências ocorreram na vida de Adriana Bruno, e todas elas contribuíram, de uma forma ou de outra, para o surgimento do negócio inusitado.


Paixão e decepção

Criada em Brasília, e vivendo em São Paulo há 15 anos, sempre amou fazer teatro de rua, pois esse é o trabalho no qual se identifica e é sua forma de expressão. Enquanto conversa no interior da decorada Maria Berenice, descrevendo sua história de vida desde quando atuou em grupos teatrais de rua até o início do comércio de bolsas no microônibus, Adriana alterna momentos de tristeza e descontração. Com algumas reflexões, e uma dose de bom humor, ela conta que precisou de coragem para desempenhar na prática a idéia da loja itinerante, e como aconteceu o processo que antecedeu a criação da Maria Berenice.

“Minha história sempre foi com o teatro. Eu sou atriz, e sempre tive um trabalho com o teatro de rua”. Essa declaração esclarece a paixão que fez com que Adriana Bruno entrasse para um grupo de teatro de rua, assim que chegou em São Paulo. Entretanto, após 9 anos, o grupo teatral se desmanchou por falta de recursos financeiros e interesses divergentes entre os atores, fazendo com que ela refletisse sobre qual outro rumo deveria seguir em sua vida. Antes de chegar na capital paulista, a atriz já atuava em peças, em um grupo teatral de Brasília.



O início

Entretanto, Adriana lembra que os trabalhos no grupo de Brasília não se limitavam apenas em atuar, mas também em ajudar na produção, com a prática da costura. “No teatro de grupo em Brasília, eu sempre estava envolvida com o figurino e o cenário. Eu sempre tive essa habilidade da costura”, esclarece a atriz. Tal função se tornaria um hobby para ela, fazendo com que costurar no dia-a-dia servisse como maneira para superar a frustração com o fim do grupo: “Eu vi que, no momento em que eu ficava sentada costurando, isso era uma terapia para mim. Eu deixava de ficar pensando o que faria da minha vida, após o desmanche do grupo de atores”, relembra a empresária.

Os conselhos da mãe, Ana Cristina, 56, foram fundamentais para que Adriana começasse a comercializar as bolsas que produzia. “Minha mãe me disse que, ao invés de distribuir as bolsas para minhas amigas, eu comprasse um pouco de tecido, e as comercializasse. Isso seria uma forma de renda, enquanto estivesse desempregada”. Para Adriana, esse conselho foi o ponto de partida para o futuro negócio da loja itinerante. “Quando eu saía com a bolsa que produzia, todos perguntavam sobre ela, e queriam adquiri-la. Então, comecei a vender, e isso foi dando super certo”, contou, empolgada, como se estivesse vivendo aquele momento novamente.


O microônibus

Apesar de conseguir vender as bolsas que produzia, Adriana desejava incrementar seu negócio, para que obtivesse maior lucro e mais visibilidade. Nesse momento, um fato do passado, com algumas reflexões futuras, fizeram com que ela tivesse a idéia de criar uma loja ambulante.

O veículo que futuramente se transformaria na loja de bolsas ambulante é um microônibus velhinho, segundo palavras de Adriana: “É um microônibus escolar, é um veículo velhinho. Era do grupo teatral, e foi adquirido há 10 anos, para os atores se locomoverem pela cidade”. No momento em que o grupo de atores se desfez, Adriana renegou o valor que teria para receber em dinheiro e escolheu ficar com o microônibus. “Na hora de dividirmos o dinheiro do grupo, preferi ficar com o carro. Na época eu não sabia o motivo dessa escolha, mas agora eu sei. E olha que o dinheiro que eu tinha para receber era muito maior do que o valor do veículo!”, ressalta a atriz.

Essa decisão do passado influenciou na escolha que Adriana faria no futuro. Sempre procurando uma maneira de tornar o comércio de bolsas mais atraente, ela refletiu quando um comerciante passou pela rua onde reside. “Certo dia, na rua da minha casa, passou o carro da pamonha. O cara vendendo pamonha dentro de um fusquinha”. Enquanto relata a cena que abriu seus olhos para a loja itinerante, Adriana sorri, como se não acreditasse que algo tão corriqueiro (um vendedor ambulante de pamonha) , ajudasse na elaboração de sua idéia. Adriana continua, e explica seu raciocínio ao se deparar com o vendedor: “Eu pensei, poxa, o cara não tem um ponto, não tem loja, mas ele pega o fusquinha dele e vai atrás do cliente. Garanto que ele sustenta sua família assim”, sentenciou a atriz.

Fotos: Cristiane Peixoto

Reforma para que o microônibus se
transformasse em uma loja itinerante
levou cerca de 8 meses

A partir desse momento, a decisão de criar uma loja móvel já estava tomada por parte de Adriana. O microônibus levou 8 meses para ficar pronto para o comércio (devido despesas com decoração e manutenção do veículo), e foi batizado como Maria Berenice, uma homenagem que Adriana fez para sua avó, que tem o mesmo nome. 


Rodando pela cidade

Com o veículo pronto e as bolsas confeccionadas, Maria Berenice deveria começar a rodar pela cidade. Entretanto, o início dessa atividade foi mais difícil do que parecia, como relata Adriana ao contar o primeiro dia em que saiu com o microônibus para comercializar as bolsas. “Peguei o carro para sair pela cidade, mas não tinha coragem de parar em algum local. Eu saía, rodava, rodava, e não parava em um lugar.” A dificuldade em encontrar uma vaga para estacionar, e a insegurança ao dirigir o veículo (Adriana tinha acabado de tirar a carta profissional), foram as principais dificuldades no começo de funcionamento da loja ambulante.

Entretanto, coisas boas também foram acontecendo, conforme Maria Berenice rodava pela cidade, como recorda Adriana, de maneira descontraída : “Eu fui percebendo com o tempo, que quando o veículo ficava parado no trânsito, as pessoas dos outros carros faziam comentários”.”O que é isso ?”, “onde você vai estacionar ?”, e “eu quero comprar essas bolsas agora!”, eram algumas reações das pessoas que olhavam para o microônibus todo decorado.

Fotos: Cristiane Peixoto

Originalidade é o principal para atrair os clientes

Essas manifestações fizeram com que Adriana não desanimasse com o início inseguro e difícil.

 

Questionada sobre o momento de maior emoção desde quando começou a trabalhar com a loja itinerante, ela relembra quando decidiu passar com a Maria Berenice por uma das vias da cidade com lojas das mais diferentes grifes: “Eu já morava em São Paulo há tanto tempo, mas nunca havia passado pela rua Oscar Freire. Um dia, resolvi passar com o microônibus tocando ‘Pena Branca e Chavantinho’, e a reação das pessoas foi inesquecível”. Quando notou como as pessoas reagiram, ela se emocionou : “Comecei a perceber que tudo o que eu queria dizer, o que sentia, e quem sou, eu transmitia através das bolsas e do veículo”, relata a criadora da Maria Berenice.



O comportamento dos clientes

Adriana não se esquece das amizades que fez graças a loja itinerante. Resumidamente, ela opina sobre a vantagem entre o comércio em um microônibus, e um ponto fixo convencional : ”Amo a história do ônibus, e acho que é um diferencial. As pessoas entram nesse ambiente decorado, e ficam mais sensíveis. Os clientes que passaram por aqui já falaram até sobre suas vidas, e isso jamais aconteceria em uma loja normal. As amizades que fiz não tem preço”, comenta Adriana, com um largo sorriso no rosto. Daqueles que costumamos ver em pessoas que amam o que fazem.

Atualmente, Adriana Bruno e Maria Berenice estão rodando por Brasília. Para acompanhar o itinerário dessa loja diferente, acesse www.mariaberenice.com. O ateliê com as bolsas fica em São Paulo, e o endereço também pode ser conferido no site.
 

Publicada por
PAULO CESAR CABRAL
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