O metrô de São Paulo é o reflexo miniaturizado de tudo o que a cidade é na superfície, a começar pela escassez de tempo e constante busca por produtividade, tão bem representadas na canção de Ricardo Miyake: “Começou um novo dia, já volta quem ia, o tempo é de chegar, de metrô chego primeiro, que tempo é dinheiro”.
As pessoas estão niveladas, mas não por baixo. O transporte é subterrâneo, mas a qualidade é alta. Ao menos é o que diz a pesquisa que a Companhia do Metropolitano de São Paulo divulga em sua página na internet: 57% dos usuários consideram que o metrô funciona bem, e 24% chegam mesmo a dizer que é o que funciona melhor, na comparação com Correios, bombeiros e outros serviços públicos que dificilmente seriam concorrentes ameaçadores, como hospitais públicos e Rota.
As pessoas estão niveladas porque, como a nudez nas praias, o metrô uniformiza as condições, anula as desigualdades. Nos vagões, todas avançam na mesma velocidade, estão sujeitas à mesma temperatura e têm o mesmo cenário a observar, sejam os vizinhos de banco, a publicidade dos monitores ou a monótona paisagem externa. Sim, externa – mesmo quando há apenas paredes cinzentas por quilômetros a fio, há quem olhe para fora.
Os monitores, sobreviventes da Lei Cidade Limpa, recebem apenas olhares entorpecidos. Ninguém dá muita atenção às promoções imperdíveis, receitas infalíveis e apelos sensíveis. Dentro dos vagões, a telefonia celular, o remédio contra calvície e a ONG que defende a Mata Atlântica não merecem mais que contemplação enfadada.
Apesar da homogeneidade de direitos e privações, um passageiro com necessidades especiais seguramente receberá tratamento diferenciado. Necessidades especiais são algo restritas, explica Welhigton Barros, membro do programa Jovem Cidadão, que desde 2000 oferece o primeiro emprego a alunos de escolas públicas. Não estão incluídos intérpretes para estrangeiros, letrados para analfabetos, nem conhecedores de LIBRAS para deficientes auditivos. Welhigton, muito orgulhoso em seu uniforme marinho e verde-limão, à la Telefónica, tem 18 anos, escapou do Exército e acha o trabalho uma moleza: “É mais assim dar informação, cuidar que não joguem lixo, essas coisas. Não é um serviço pesado”.
As necessidades especiais que merecem as exceções são, principalmente, de locomoção. No dia 30, na estação Paraíso, funcionários do departamento de Operações fizeram um serviço realmente de peso, ao ajudar um cadeirante obeso a descer até a plataforma de embarque, para isso invertendo o sentido da escada rolante e oferecendo amparo a equipamento e ocupante até a chegada ao piso inferior. Deficientes motores usam diariamente o metrô, explica um suado membro da equipe.
No subsolo como ao ar livre, os perfis sociodemográficos se assemelham. Dos 2.310.503 passageiros transportados por dia pelas 55 estações, 59% têm entre 18 e 34 anos, 55% completaram o ensino médio, 54% são homens, a renda gira em torno de R$ 1.400 mensais.
Os perfis psicográficos também espelham os pedestres. Os vagões abrigam meninas vestidas de rosa que falam baixo e riem alto; rapazes que ouvem música e usam os bonés ao contrário. Senhores de boina e bengala tão evidentemente aposentados que causa espanto a ausência de milhos e pombos ao seu redor. E não falta o piadista.
No mesmo dia 30, uma amiga contava a outra: “Tarde da noite, dois tarados e uma mulher bonita são os últimos passageiros do vagão, que ruma para a estação final da linha azul. Percebendo os olhares de cobiça dos rapazes, ela propõe: por R$ 20 revela a coxa. Dinheiro pago, perna exibida, o vagão avança. Mais um trecho e a nova oferta: por R$ 50, revela os seios. Dinheiro pago, blusa removida, o metrô segue. A uma estação do fim, a derradeira oferta: por R$ 100, mostra onde fez a cesariana. Dinheiro pago, comboio chegando ao Jabaquara, ela aponta pela janela: naquele hospital ali!”.
