O pequeno Júlio é acordado pela mãe todos os dias por volta das 6h30 da manhã. De alguma forma hoje parece ser um dia no mínimo diferente. Na pequena mesa da cozinha de sua casa, uma grande variedade de produtos. Bolacha com recheio, panetone e outras guloseimas. Júlio adora esses dias diferentes e essa alegria momentânea do garoto tem sim uma “culpada” e ele é uma senhora frágil, chamada Lourdes.
“Decidi por não ter filhos. Tem tanta gente no mundo precisando de ajuda, quem sou para pôr mais criança no mundo”, se pergunta. Mas quem conhece a Dona Lourdes esta frase não choca. Aos 79 anos, ela se divide entre várias Igrejas de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista e faz o que está ao seu alcance, às vezes até o que não está, para ajudar ao próximo. “Já subi de noite, todo o morro do Irajá para levar uma cesta básica para uma família”. Subir o morro do Irajá? Quem conhece sabe o que significa isso, o tal morro é íngreme.
Para ela, isto parece pouco. “Faço muito mais, isso não foi nada”. Durante a semana ela se junta a outras amigas e monta cestas básicas com produtos que recebe de doações de outros moradores ou de empresas da região. Ajudar ao próximo contagia. “Com desconto a gente consegue carne para quermesse, banner para divulgação das festas e muitas outras coisas”, diz Odete, que ajuda nos trabalhos da Igreja e vê na Dona Lourdes um exemplo. “Motiva a todos nós. Ela caminha da casa dela até aqui todos os dias e sempre sorrindo. É incrível”.
Odete e Dona Lourdes se juntam a outras obstinadas pessoas para montar cestas básicas com diversos tipos de alimentos. Desde bebidas, frutas, enlatados e doces. “As crianças ficam brigando para saber quem leva a cesta pra casa. Deixa uma sensação ótima na gente”, completa a incansável senhora.
Parece haver apenas um fato que tira o sorriso do rosto de Dona Lourdes. “Nem todas as pessoas vem para cá (para a Igreja) com boas intenções”. Ela se refere a algumas pessoas que não se contentam com a cesta que ganham. “Uma mulher veio com uma criança chorando certa vez, reclamando de que ela tinha ganho bolacha de morango, mas queria de chocolate”. Parece absurdo, mas é um acontecimento constante nestes pontos de distribuição. “No começo todo mundo faz cara de dó, de quem precisa muito, mas depois com o costume começam as exigências”.
Sem filhos por opção, Dona Lourdes funciona como mãezona nos bairros onde atua. São constantes as broncas, principalmente nos jovens. É o caso de Milena, 22 anos. “Quando tinha uns 16 anos, fiquei namorando encostado no muro da Igreja, era um lugar mais calmo, seguro. Ela viu de longe e chegou falando “Milena, eu vou chamar o seu pai, hein”!
A relação com a fé começou cedo. Quando tinha 13 anos, Dona Lourdes correu para uma Igreja atrás de um padre para tentar curar o seu irmão, que estava doente. Daí pra frente, ela jamais abandonaria a paróquia. O que era um complemento do seu tempo virou obrigação diária, mas sempre com prazer. “Eu não sei como seria se não ajudasse na Igreja. Quando não venho para cá, sinto falta.”
Ao ajudar os outros, Dona Lourdes libera uma cadeia de solidariedade. A sua neta mais nova, Júlia, acompanha a avó sempre que pode. “Eu gosto de vir aqui. (sic) até ajudo a montar as cestas”, diz a menina 12 anos.
Quem sabe a pequena menina decida por seguir a “carreira” da avó. Afinal, em tempos onde o desvirtuamento de valores aparece tão claro nas novelas, nos filmes e no dia-a-dia, conforta saber que pelo menos algumas pessoas servem como exemplo. Dona Lourdes trabalha diariamente para levar essa lição adiante.
