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Publicada em: 12/02/2010
História de quem conta histórias
Conheça a maior e mais adorada leitora de histórias da periferia de São Paulo

Generosidade. É com essa simples palavra que se pode descrever dona Maria das Neves Rodrigues, 69, aposentada. Cabelos brancos até a metade da cabeça (“ainda estou na meia idade”, brinca), roupas com cores vibrantes sem exageros, olhar sereno através de um óculos antigo e um sorriso sincero fazem desta ex-costureira uma das mais queridas e admiradas no bairro onde vive, o Jardim Imperador, na zona leste de São Paulo.

Dona “das Neves”, como gosta de ser chamada, passou os últimos 13 anos de sua vida visitando lares de pessoas carentes da região onde mora, levando um pouco de alegria, além de carinho e cultura. “Gosto de contar histórias e ler revistas. As crianças podem até nem entender as notícias, mas o importante é o contato com a informação. Ler e ouvir é que é importante”, garante. Todas as tardes, a “Vó” reúne as crianças para suas leituras que são feitas em casas diferentes. “Eu via essas crianças nas ruas aprendendo o que não devem e tive essa idéia de juntar todas elas para aprenderem um pouco da vida”, conta. Dona “das Neves” não esconde o fato de que passou a se sentir “mais útil e mais sabida” desde quando começou esse trabalho voluntário. “Eu já me interessava por leitura, embora tenha sido costureira toda vida. Depois que comecei a ler para crianças e jovens carentes passei a saber mais do mundo”.

Dona Maria das Neves já enfrentou dois casamentos infelizes (“o primeiro não me amou e o segundo partiu numa manhã de domingo com os meninos chorando”). Os “meninos” hoje são quatro rapazes criados. Ela revela que sua dedicação não é a toa. “Meu melhor pagamento é ver o sorriso das crianças enquanto eu conto uma história. E tem também uma pontinha de gratidão, porque meus filhos também conheceram uma senhora que os alfabetizava enquanto eu estava trabalhando”.

Tanta generosidade faz com que ela se sinta de bem com a vida e, principalmente, bem consigo própria. “Eu sinto prazer em dar alegria a eles, por isso conto histórias cinco dias da semana. Às vezes, aos sábados ou domingos aparece alguém na minha porta pedindo pra recontar alguma história. Não tem como resistir, eu abro um sorriso, o coração e recomeço”, diz a alegre senhora, a “ledora” mais querida do bairro.

Cansaço? Preguiça? Dona “das Neves” garante que nunca pensou em deixar de realizar as suas leituras nos últimos 13 anos qualquer um desses motivos. “As vezes a gente está com um pouco de moleza, mas logo me levanto e não deixo me abater! Mesmo não sendo filhos ou netos de sangue aquelas crianças despertam um sentimento bom e é por elas, só por elas, que eu não desisto da leitura. Sei que dali, um dia lá frente pode sair um advogado, um médico ou um bom profissional. Quando isso acontecer, vou saber que tem uma parte de mim ali dentro”, conclui emocionada.

Publicada por
FLAVIA LIMA GOMES NASCIMENTO
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