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Publicada em: 25/02/2010
A questão é se importar!
A história de Doralice, mulher que fez mel da sua amargura

A dor é que ensina a gemer, diz o dito popular. A mineira Doralice do Carmo Croce transformou suas dores e seus gemidos em versos. Lindos versos que falam das dores do dia-a-dia. Doralice tem 74 anos de idade, já trabalhou no balcão de bar para ajudar o marido, cuidou dos cinco filhos, vendeu tupperware, ficou viúva, ajudou a criar os onze netos, entrou para o grupo dos Neuróticos Anônimos viu tudo da vida e chegou na terceira idade como poeta.

Começou a trabalhar muito cedo como professora dando aulas na roça mesmo. Casou-se e foi morar na cidade. Ajudou seu companheiro em todos os negócios que ele resolveu montar desde um bar até uma companhia de ônibus. Morou com a família em Blumenau, Curitiba, Belo Horizonte entre outros tantos lugares e acabou estacionando seu bonde em Santos. Brinca quando conta que a família parecia de nômades e lembra, sem muito orgulho, o quanto seu companheiro mudava de emprego sempre em busca do seu próprio negócio. A família só ia junto, pingando de cidade em cidade.

Os filhos cresceram e Doralice ficou viúva. Começou a vender utensílios domésticos de porta em porta para ajudar nas finanças. Vieram os genros, as noras, netos, e ela sempre presente, como toda boa avó, ajudava a criar. Alguns anos depois decidiu entrar para o N/A (Neuróticos Anônimos). Fez várias amizades e algumas delas a levaram para o grupo de poesia.

Foi assim que começou a escrever e já na terceira idade descobriu sua veia de poeta. Participou de vários concursos e ganhou diversos prêmios. No primeiro livro lançado ela fala sobre coisas do dia-a-dia, dos filhos e netos, sua infância na roça. Por sinal é disso que ela gosta de falar. Respeitada por sua arte, hoje faz parte da diretoria da Associação de Poetas e Escritores da Baixada Santista (Apebs) e frequenta também outras associações literárias de Santos.

Atualmente Doralice se dedica, ou se importa, como ela diz, de cuidar de uma das netas que esta bastante doente. Por isso pendurou as chuteiras por um tempo indeterminado, deixou o lápis e o papel “de canto”. Alguns minutos de conversa com ela são suficientes para se perceber doçura na fala, amor pela leitura, paixão pelas obras de Machado de Assis. Sonha em ter a obra completa do autor. A dor que ensinou Doralice a gemer e a poetar fizeram dela uma pessoa que se importa e que importa para tantas pessoas que ela já comoveu. Recomenda-se a leitura do livro “Sede” de Doralice, tão importante quanto ela.

Publicada por
MARIANA CROCE VECHIES
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